Instituição

Acumulação das pensões

Exmos. Senhores Presidentes das Delegações,

Junto envio em anexo, posição da Direcção Nacional da ADFA relativa à acumulação das pensões.

Apelo à coesão e unidade em torno da ADFA, ao reforço da confiança para a defesa dos direitos dos deficientes militares.

A Direcção Nacional agradece, uma vez mais, todo o vosso empenho.

Com saudações associativas,

O Presidente da Direcção Nacional
José Arruda


Download documentos

Mensagem para Eusébio

Exmo. Senhor Director Clínico do Hospital da Luz, Dr. José Roquette,

 

Para: Eusébio da Silva Ferreira

 

Na sequência das noticias vindas a público, a Associação dos Deficientes das Forças Armadas manifesta a sua solidariedade e reitera rápida recuperação da sua saúde, àquele que envergando a camisola das Quinas elevou bem alto o nome de Portugal e que como cidadão Português, também serviu as Forças Armadas Portuguesas e honrou a camisola da Selecção Militar Portuguesa.

Nós durante o período da Guerra Colonial e principalmente nesta época de Natal, lá longe em Terras Africanas sofríamos com a solidão, mas a sua energia, encanto e misticismo com a bola e muitos golos com magia, o melhor anti-depressivo natural que nos fazia esquecer os momentos dramáticos e trágicos vivenciados numa guerra injusta.

Sempre venceste todos os combates! E este vencê-lo-ás.

Obrigado por tudo Eusébio, Longa Vida, Bom Natal e Próspero Ano Novo, para si e para a sua Família.

Kanimambo Eusébio.

 

O Presidente da Direcção Nacional da ADFA

José Eduardo Gaspar Arruda

DISCURSO DO MINISTRO DA DEFESA NACIONAL JOSÉ PEDRO AGUIAR-BRANCO

DISCURSO DO MINISTRO DA DEFESA NACIONAL JOSÉ PEDRO AGUIAR-BRANCO

Associação dos Deficientes das Forças Armadas - ADFA

Lisboa, 19 de Dezembro de 2011

Exmo. Senhor Chefe de Estado Maior General das FA

Exmo. Senhor presidente da ADFA

Exmos Senhores representantes dos três ramos das FA

Convidadas e convidados

Minhas senhoras e meus senhores

Combatentes

Permitam-me que saúde, especialmente, nesta ocasião, o professor Eduardo Lourenço, aqui presente. Uma personalidade ímpar da cultura portuguesa.

A atribuição do Prémio Pessoa é o reconhecimento pelo exemplo e pela forma como dedicou a sua vida aos estudos portugueses. Da literatura à filosofia. Das artes plásticas à política.

É um privilégio para qualquer país ter um ensaísta e crítico da sua qualidade e também um exemplo de clarividência que bem precisamos para ultrapassar o momento crítico que o país atravessa.

Minhas Senhoras e meus senhores

Encerramos hoje a evocação dos 50 anos do início da Guerra Colonial. Poucos factos foram tão relevantes na

história de um país, ou de um povo, como a Guerra Colonial.

E olhando com a distância que a história permite, os números parecem ainda mais marcantes. Mais impressivos.

Treze anos de guerra, a meio mundo de distância. Foi um dos conflitos mais longos do último século e que arrastou centenas de milhares de homens. Centenas de milhares de portugueses.

A verdade é que neste nosso pacato e sereno país poucas pessoas não têm uma história de guerra.

Poucas pessoas não têm um ex-combatente nas suas famílias. Alguém que sabe manejar uma arma.

A verdade é que este Portugal, sereno e pacato, foi um dos países mais militarizados do Mundo. Tudo isto a menos de uma geração de distância.

A guerra, que hoje evocamos, marcou muito mais do que uma geração. Marcou o país que somos. Politica, social e economicamente.

Até a própria democracia está intimamente ligada a este conflito.

E nesse sentido, somos todos muito mais filhos da Guerra Colonial do que estamos dispostos a admitir.

É por isso extraordinário ou não, que seja a ADFA, a organização que mais se empenhou em evocar os cinquentas anos da guerra colonial.

Não foram as Universidades por interesse sobre este período histórico. Não foi sequer o Estado por interesse sobre a sua própria responsabilidade.

Foram os deficientes das Forças Armadas que uma vez mais garantiram que esta página da nossa história não fosse rasgada ou votada ao esquecimento.

Com razão ou sem razão, a verdade é que temos vergonha da guerra.

Vivemos mal com as razões que nos levaram para África. Vivemos mal com o que lá se passou e consequentemente com quem por lá passou.

Percebo, por isso, este esforço da Associação dos Deficientes das Forças Armadas.

A guerra acabou há 37 anos. Mas falta a outra paz. A paz com a história.

E o papel da ADFA, neste processo, tem sido essencial. Nesta procura da paz com a história e com a qual também se constrói a democracia.

Ou como oportunamente o manifesto da Associação lembra, a ADFA é também um capitão de Abril.

A sua perseverança ao serviço dos combatentes, muitas vezes contra a própria inércia do estado exige, todos os dias, que estes homens não sejam esquecidos.

Minhas senhoras e meus senhores

Combatentes

Nos últimos meses discutimos a manutenção da isenção das taxas moderadoras e a manutenção dos subsídios aos deficientes das Forças Armadas.

Podia falar-vos deste assunto como uma vitória deste Ministério, como um reconhecimento pelo papel que as Forças Armadas desempenharam em África.

Mas não é.

É uma questão de justiça. Repito: uma questão de justiça e o contrário seria sempre imoral.

Tenho dito que não se pode exigir mais a quem já deu tudo pelo país. Hoje vou ainda mais longe.

O vínculo do Estado com os homens que combateram na Guerra Colonial não se extinguiu no dia do seu regresso. Ainda existe.

E os deficientes das forças armadas são disso o melhor exemplo. Têm esse vínculo marcado nos seus corpos e nas suas mentes até ao último dos seus dias.

O que todos temos de fazer é garantir que o País reconheça a sua parte do vínculo e que o Estado cumpra a sua parte do compromisso.

E se estas questões são as mais perceptíveis outras há que são ainda mais difíceis de resolver.

Refiro-me às cicatrizes invisíveis que uma guerra sempre deixa.

Sabemos hoje que milhares de portugueses conseguiram regressar à sua normalidade, mas sabemos, também, que muitos não o conseguiram fazer.

As feridas que trazem com eles são menos evidentes, ao olhar, mas nem por isso menos incapacitadoras.

É também a esses homens que deixo aqui uma palavra.

Minhas senhoras e meus senhores

Combatentes

Volto atrás nesta intervenção. 37 anos depois continuamos a ter vergonha da guerra.

Disse, na Liga dos Combatentes, que um país que vive mal com o seu passado está condenado a viver mal o seu presente e a ser descrente quanto ao seu futuro.

É responsabilidade deste Ministério fazer a paz com a história. É responsabilidade deste ministro conduzir o processo.

Nestes próximos quatro anos tudo farei para que isso seja possível.

Contem comigo.

Disse

Download discurso em formato pdf

Mensagem de sua Excelência General Ramalho Eanes

Sei que seria obrigação minha, obrigação que, aliás, com muito gosto satisfaria, participar presencialmente na comemoração do 37º aniversário da fundação da ADFA. Não poderei, no entanto, fazê-lo por razões de saúde.

Desejando, no entanto, marcar presença de apreço e consideração pela ADFA e pelo seu trabalho de profundo sentido social, pedi ao camarada Sr. General Espírito Santo, militar e intelectual de relevante erudição e mérito, que me representasse na Conferência “A Guerra Colonial – Suas consequências no quadro das reparações morais e materiais devidas aos Deficientes Militares”.

Seguro estou do especial interesse da sua intervenção para a ADFA, para a Instituição Militar e, se sobre ela se quiserem debruçar, para a Sociedade Civil e para o Estado.

Felicito a ADFA, em especial a sua direcção, pelos seus 37 anos de luta pelo reconhecimento dos direitos dos Deficientes das Forças Armadas ao reconhecimento social e político da Nação e, consequentemente, ao direito inalienável à dignidade, à reabilitação e à participação activa na comunidade.

Felicito a ADFA, em especial a sua direcção, pelo percurso de afirmação e crescimento desenvolvido nesse período, em que inúmeras foram as dificuldades, muitas as incompreensões e não poucas as resistências e desconfianças, que só foram ultrapassadas devido à sua determinada, mas, quase sempre também, prudencial luta social.

Felicito a ADFA pela credibilidade social que merece e pelo prestigio social de que desfruta, nacional e internacionalmente.

Felicito-a, ainda, porque soube mostrar que a responsabilidade da guerra, sobretudo da guerra injusta, cabe aos governantes dos países e nunca aos combatentes. Quando estes entram na guerra, fazem-no obedecendo ao poder político, mas só o fazem com empenho e assumido risco quando sentem estar a responder a um apelo da Nação.

Felicito a ADFA, também, porque, ao criar uma associação independente do poder político, credibiliza-se perante a restante Sociedade Civil e o Estado e, ao conseguir, para ela, o estatuto de interlocutor social contribui para o seu fortalecimento.

Aos combatentes presentes nesta sessão e aos cerca de 13.000 associados da ADFA – a todos aqueles a quem a Nação tanto deve – apresento o meu muito respeito e a minha gratidão. Saibamos nós, portugueses, olhar para todos, sem distinções, como exemplo de amor à Pátria e agradecer-lhes tudo o que fizeram por Portugal.

General Ramalho Eanes

Discurso proferido pelo Senhor General Gabriel Espírito Santo

A GUERRA COLONIAL – SUAS CONSEQUÊNCIAS NO QUADRO DAS REPARAÇÕES MORAIS E MATERIAIS DEVIDAS AOS DEFICIENTES MILITARES

 

 Saudações:

Cumprimento, com emoção, a Associação dos Deficientes das Forças Armadas, na pessoa do seu Presidente da Direcção, dos seus corpos sociais e sócios. Há alguns anos que sigo as suas actividades, nos seus justos anseios e injustas frustrações, materializadas nos princípios de não deixar nenhum dos nossos para trás e lutando permanentemente pela concretização das reparações morais e materiais que a Nação lhes deve.

 

 

I

      Este encontro, da iniciativa da Associação dos Deficientes das Forças Armadas e sob o alto patrocínio de Sua Excelência o General António Ramalho Eanes, ex- Presidente da República e Conselheiro de Estado, tem por tema principal “ A guerra colonial - suas consequências no quadro das reparações morais e materiais devidas aos Deficientes Militares”.

     Permitam-me que comece por saudar o patrocinador deste Encontro, o General Ramalho Eanes, meu Camarada de Armas e Amigo, que me cometeu a missão de proporcionar a esta audiência algumas reflexões sobre o tema. Faço-o com muita honra e gosto. Porque a missão me foi cometida por pessoa que conheço e admiro desde os tempos da Escola do Exército, por um militar de eleição que respeito pelas suas qualidades de Homem de carácter, de palavra e de honra, por um português a quem o altar da Pátria reserva um lugar para quem demonstrou coragem, patriotismo e desprezo por interesses pessoais em momentos de perigo, por um Amigo que cultiva o princípio de não deixar amigos para trás. Porque o tema me permite recordar princípios que considero estruturantes da condição militar, em mudança numa sociedade nova de contornos imprevisíveis, mas que todos, em conjunto, devemos encarar para procurar caminhos novos que nos conduzam aos objectivos permanentes que definem aquela condição.

     Para abordar o tema “ A guerra colonial – suas consequências no quadro das reparações morais e matérias devidas aos Deficientes Militares” vou decompô-lo nos seus elementos estruturantes, método que se tornou hábito nos militares quando analisam a missão que lhes é cometida. E os elementos estruturantes do tema são a Guerra e a especificidade da guerra colonial, os Deficientes Militares e as reparações morais e materiais que lhes são devidas pela Nação. A que acrescentarei uma reflexão sobre o papel que a Associação dos Deficientes das Forças Armadas, desde a sua fundação e ao longo de cerca de quarenta anos, tem desempenhado na defesa dessas reparações morais e materiais.

 

II

      O que é a guerra e porquê a guerra? Quais as suas causas e consequências?

      A cultura judaica – cristã do Ocidente representa-a, seguindo a revelação bíblica, como um dos quatro cavaleiros do Apocalipse, aquele que empunha a espada, a par dos que representam a peste, a fome e a morte. O Padre António Vieira, no século XVII, imagina-a “ como aquele monstro que se alimenta de sangue e nunca se sacia”. A evolução do pensamento científico e do conceito de soberania, quando na Europa do século XIX Napoleão destronava reis e anexava territórios, levou um teorizador da guerra, que nela participara e que ficou para a História como um dos seus mais influentes amanuenses, a definir guerra “ como um acto de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”.

    O último quartel do século XX assistiu a esforços redobrados para entender as causas da guerra e dos conflitos armados, tentando encontrar uma teoria geral que granjeie aceitação generalizada por parte dos cientistas sociais em cada uma das suas disciplinas e procurando conciliar aproximações entre teorias micro comportamentais do conflito violento (biológicas e psicológicas, do instinto da agressão, do comportamento animal e outras) e macro comportamentais da violência que conduzem à guerra internacional, com relevo para a ciência política e as várias correntes de pensamento que orientam a política e as teorias das relações internacionais (realistas ou idealistas e os seus desenvolvimentos clássicos e modernos).

     Nas tentativas de definir a guerra, em causas, actores e violência atingida, merecem destaque duas posições actuais.

      A primeira relaciona-se com o fenómeno da guerra nas relações internacionais.

     Nesta área parece poder concluir-se que o progresso científico atingido até agora não permite avaliar, com maior ou menor probabilidade, causas para a guerra generalizada entre estados. As teorias da incerteza e o efeito de borboleta enunciado por Edward Lorenz, um dos precursores da teoria do caos, continuam a evidenciar que “ uma borboleta que agite as suas asas numa parte do mundo pode conduzir a um tornado a milhares de quilómetros de distância”.

      A segunda posição relaciona-se com a violência na guerra e a tendência da natureza humana para essa violência. Sobre esta tendência, quando se comemorou o ano da Paz, em 1986, um conjunto de cientistas de renome, reunidos em Sevilha, produziu uma declaração, que ficou conhecida como a Declaração de Sevilha sobre Violência, afirmando ser cientificamente incorrecto considerar próprio da natureza humana, da sua herança cultural, da sua árvore genética, da sua base neurológica ou do seu comportamento psicológico, a tendência para a guerra.

   O que podemos concluir, se lermos Tucídides ou Robert Kagan, é que a eterna tríade de “medo, honra e interesse” continuará a influenciar as causas da guerra.

    As consequências da guerra são mais evidentes. Lêem-se na História, observam-se nas imagens diárias, sentem-se quando observamos muitos dos sentados neste auditório e outros que sofrem em casa.

      A guerra que nos interessa para este Encontro é a que aqui se designa por guerra colonial, outros designam por guerra do ultramar e que pessoalmente costumo classificar como as últimas campanhas do Império. Império que a História, no seu percurso, e os povos nas suas percepções do mundo, foram encarando de formas diferentes. Império que quando o conflito violento eclodiu em 1961 era encarado pela História como colonialismo, qualquer que fosse a roupagem que lhe quisessem vestir e que os povos percebiam como opressão, contrário ao espírito de autodeterminação expresso na Carta das Nações Unidas saídas da II Guerra Mundial.

     As causas do conflito violento resultaram da vontade de autodeterminação dos povos oprimidos e do erro estratégico da direcção política em Portugal, ao tempo, por não ter concebido uma Grande Estratégia para os tempos de mudança que comandavam o mundo.

     Como a guerra era encarada por aqueles que nela combatiam permitam-me que conte uma pequena história. Comandei, em 1964, uma das primeiras subunidades de recrutamento local, que foi empenhada no Norte de Moçambique em operações de contra-guerrilha. Alguns dos meus militares eram oriundos do planalto dos Macondes, entre os quais o condutor da minha viatura, que me iam explicando a região, os povos e a cultura onde tinham vivido. Terminada a comissão de serviço ao despedir-me dos meus homens tive um diálogo interessante com o meu condutor. Disse-lhe que iria regressar a Portugal, que não demoraria muito tempo a ser de novo mobilizado e que, se voltasse a Moçambique, talvez viéssemos a reencontrarmo-nos. E perguntei: e tu Tomé, que vais fazer quando fores licenciado? Eu, meu capitão, vou no Frelimo. Se tu vieres para Moçambique se calhar vamo-nos encontrar. O diálogo materializa o que a guerra significava: para uns cansaço e destino, para outros a sua teimosia em ser livres. O diálogo, no meu ponto de vista, mostra ainda que a guerra foi combatida sem ódio. Sinal confirmativo foi o desenvolvimento rápido de relações de cooperação técnico – militar entre ex-opositores.

     As consequências da guerra, em Portugal, foram especialmente sentidas por uma juventude masculina que foi conscrita e mobilizada para combater uma guerra distante do solo pátrio, seguindo o modelo de todos os conflitos em que o País se envolveu no século XX e que pagou com sangue e traumas erros de decisão política.  Por Quadros Permanentes das Forças Armadas que comissões prolongadas e frequentes desmotivaram e revoltaram. Por gentes que tiveram de abandonar os territórios onde tinham nascido e trabalhado, deixando teres e haveres para trás.  Nos territórios onde se travaram provocaram milhares de refugiados e deslocados, despovoamento de regiões produtivas, crescente envolvimento das suas populações num conflito que as dividia entre a fidelidade aos seus interesses ou a acomodação ao poder instituído.

      A guerra desviou recursos. Embora os indicadores de desenvolvimento apontem para um crescimento económico quer em Portugal quer nos territórios com guerra no tempo prolongado que durou, falta verificar qual teria sido o desenvolvimento se a guerra não tivesse acontecido e se os recursos utilizados tivessem sido desviados para outros fins.

      A guerra teve como consequência para a História o nascimento de mais algumas nações independentes e para os portugueses o renascimento de um forte sentimento de Liberdade e a procura de um regime constitucional que o materializasse. A guerra fez nascer o espírito do 25 de Abril, que a terminou e devolveu ao povo português o direito de escolher o seu futuro.

III

       Condenar a guerra, tentar regulá-la por leis, procurar minimizar os efeitos sobre as suas vítimas ou reconhecer o sacrifício daqueles que nela combateram acompanham a história da humanidade, parecendo continuar o debate sobre a vida ou a morte, nos campos da religião, da filosofia ou do direito.

      Os povos sempre celebraram os seus mortos na guerra, como o atesta o discurso de Péricles perante os atenienses e relatado por Tucídides na sua Guerra do Peloneso ou se materializa nos monumentos e lápides que recordam batalhas. É o culto de heróis e mortos, que a humanidade tardou a transportar para o culto daqueles que continuavam vivos mas incapazes de viver a vida, e que só foi iniciado quando, no século XVII, a natureza da guerra e dos combates mostrou que aqueles que sobreviviam com ferimentos graves ultrapassavam os mortos.

       Novas concepções de estado e de sociedade condicionaram governantes a reconhecerem quem se tinha sacrificado pelo interesse comum. A França de Luís XIV foi pioneira na adopção de medidas que recompensassem moral e materialmente os militares que se tinham incapacitado na guerra ou que estavam demasiado velhos para continuarem a lutar e em 1670 foi construído o edifício Les Invalides que ainda hoje mantém a sua missão, acrescentando-lhe um hospital para grandes deficientes militares. A Inglaterra de Carlos II seguiu o mesmo caminho e em 1680 foi fundado o Hospital de Chelsea, que mantém a sua missão inicial com funções mais alargadas. Em Portugal, sob o patrocínio da princesa Maria Francisca de Bragança, iniciou-se em 1792 a construção de um edifício para albergar antigos combatentes e militares inválidos, que foi inaugurado em 1827 com a designação de Asilo de Inválidos Militares de Runa. Durante anos incluído na estrutura do Exército manteve a sua missão. Hoje, na estrutura do Instituto Social das Forças Armadas, tem a sua missão modificada.

     Os mortos e inválidos da I Grande Guerra levaram à criação em Portugal da Liga dos Antigos Combatentes e a promulgar alguma legislação que tentasse minorar os sofrimentos daqueles que tinham combatido na Guerra. Monumentos aos mortos perduram em quase todos os municípios do País e a Liga, num esforço notável e com a solidariedade dos cidadãos, tentou ir colmatando aquilo que faltava no Estado, já que o pouco que havia foi-se diluindo no tempo. Sem ter participado na II Grande Guerra, Portugal não seguiu os desenvolvimentos das sociedades que tinham combatido e sofrido no conflito.

     Sem alterar os conceitos e ritos do culto de heróis e mortos, essas sociedades passaram a encarar a compensação moral e material dos que por ela se sacrificaram, mas que continuavam vivos, com medidas que lhes permitam que vivam a vida com dignidade. Alterando aquilo que afirmava o Padre António Vieira, no século XVII “ Se serviste a Pátria e ela te foi ingrata, tu fizeste o que devias ela o que sempre fez”, e face ao número crescente de feridos e inválidos resultantes dos conflitos mundiais do século passado e aos novos tipos de invalidez surgidos com conflitos mais recentes, como o stress pós traumático, administrações e governos têm incluído nos seus órgãos centrais de decisão política departamentos relacionados com os veteranos de guerra e os militares incapacitados no desempenho das suas missões. A legislação inglesa recentemente promulgada dá passos significativos de inovação.

    As últimas campanhas do Império, durando cerca de treze anos, obrigaram ao empenhamento de centenas de milhares efectivos, a grande maioria recrutada e mobilizada em Portugal mas também com números significativos de militares e paramilitares dos territórios em conflito. Estão contabilizados cerca de 8000 mortos e o número de feridos ultrapassa os 15.000, dos quais cerca de dez por cento são deficientes graves.

     Com legislação antiquada os deficientes militares iam chegando ao Hospital Militar Principal, que se viu na necessidade de os albergar e conferir-lhes tratamento em condições que não correspondiam à dignidade devida à sua condição. Do seu Orçamento próprio, o Exército foi garantindo o possível e arranjando protocolos para centros de reabilitação onde se garantisse melhor tratamento. Algo teria de ser feito para terminar uma situação injusta e alguns conhecem a história de anseios e frustrações que se viveram no Anexo de Artilharia um.

 

IV

      A transformação política, social, económica, militar e cultural que a mudança de regime trouxe à Nação portuguesa em 25 de Abril de 1974, resumida no Programa do Movimento das Forças Armadas nas palavras Descolonizar, Democratizar e Desenvolver, traduziu-se de imediato em acções que passaram pelo final da guerra e a consciência da sociedade civil de que a sua organização poderia ter influência nas decisões políticas do estado. Sociedade que progressiva e aceleradamente se foi organizando ao nível de comissões e associações que procuravam fazer ouvir os seus anseios e valer os seus direitos. O Deficientes Militares, pelo peso dos seus argumentos e número gritante e chocante de quem reclamava, organizou-se, partindo de alguma base incipiente, para constituir uma Associação autónoma e que, diferenciando-se da Liga dos Combatentes, ao tempo acomodada ao regime, representasse os seus anseios e direitos. A 14 de Maio de 1974 nasce a Associação dos Deficientes das Forças Armadas, que desde então e até hoje, tem percorrido um caminho orientado por uma estratégia de reivindicação que conduziu a alguns resultados materializados em direitos e benefícios e a uma maior consciencialização do poder político e da nação para a justeza dessas reivindicações. Foram necessárias acções firmes e linguagem forte para conseguir objectivos? E se não fosse assim quem os ouvia?

    A Associação, fruto da tomada de consciência por parte dos deficientes militares do seu direito à dignidade, à reabilitação e à participação activa na comunidade, tem 37 anos de história de lutas e conquistas.

     Hoje, implantada em todo o território nacional e também em Moçambique, com 12 delegações e vários núcleos, prossegue os seus objectivos de procurar que haja cada vez mais uma legislação justa e adaptada à condição dos seus associados, nos quais se incluem o apoio associativo e jurídico, a dinamização de actividades de carácter cultural, desportiva e de lazer, para além de, na área da saúde, prestar apoio através de vários acordos e parcerias, em várias áreas e valências médicas.

    Reforçando a sua posição nacional, a ADFA aderiu em 1984, à Federação Mundial dos Antigos Combatentes e Vítimas de Guerra, organismo consultivo das Nações Unidas e de outras entidades internacionais e que representa cerca de 27 milhões de antigos combatentes de 84 nações.

    Pelo Estado Português a Associação foi reconhecida, em 1981,como Pessoa Colectiva de Utilidade Pública, sem fins lucrativos e desde 1996 é membro honorário da Ordem de Mérito da República Portuguesa.

     Os seus cerca de 13.000 associados efectivos são cidadãos que se deficientaram ao serviço da Nação durante a prestação do serviço militar, assim como aqueles que á data da morte do militar dele dependiam directa e economicamente. O seu jornal, com o nome simbólico de ELO, fundado em Novembro de 1974, constitui o vínculo de união entre os seus associados e a expressão pública dos seus anseios.

    Na celebração do seu 37º Aniversário nem tudo está a ser conseguido pela ADFA. Os tempos passam, a memória esbate-se e as pessoas envelhecem ou vão desaparecendo. Nunca a Nação conseguirá pagar a tão poucos o que por muitos se sacrificaram, mas melhores cuidados de saúde diferenciados para deficientes militares e um lar para os que envelhecem continuarem com dignidade parece serem objectivos ao alcance das suas expectativas. Vamos lutar por isso, talvez agora em acção consertada com a Liga dos Combatentes, hoje com maior dinâmica e mais empenhada na sua missão.

    Permitam-me que termine com a saudação de camaradagem de armas de ex-combatente que muito respeita e venera todos aqueles que no cumprimento da missão se incapacitaram mas que devem continuar a viver com dignidade e a honrarem-nos com a sua presença e convívio.

 

 

    

 

 

 

     

 

Está em... Inicio Instituição Documentos Associativos